15 de junho de 2011

Glicose: Metabolismo e Análise em laboratório

Fonte: Corbis.com
        O nível sanguíneo de glicose é usado como indicador do metabolismo de carboidratos no corpo, podendo também ser usado para a medição da função endócrina do Pâncreas. O conhecimento do nível de glicose permite que se saiba como está o equilíbrio entre produção (pelo consumo de determinados alimentos e ainda pela conversão advinda de carboidratos) e utilização da mesma.
        O pâncreas endócrino, possui específicas regiões denominadas Ilhotas de Langerhans, as quais contém células denominadas Células Beta. Estas células são responsáveis pela secreção de Insulina.
        Sabe-se que o controle do nível sérico de glicose é dado principalmente pela insulina. Quando a glicose encontra-se em escala de produção elevada, a insulina é liberada em maior quantidade para promover o equilíbrio produção/utilização (pelo estímulo à absorção de glicose no fígado, na musculatura esquelética e na gordura; pela inibição da gliconeogênese hepática ou ainda, pela facilitação do armazenamento hepático de glicogênio). Ainda participando desse controle, encontra-se o Glucagon, que impede que o nível sérico de glicose fique muito baixo, através do controle da liberação da insulina.
         Para que o metabolismo da glicose mantenha-se regular, três fontes são responsáveis pela produção da mesma, sendo estas: 

Absorção Intestinal: Há aumento da concentração sérica de glicose em animais monogástricos cerca de duas a quatro horas após alimentarem-se.
Produção Hepática: Por gliconeogênese (utilizando aminoácidos e glicerol como base de produção) e glicogenólise (utilizando-se da hidrólise do glicogênio armazenado nos hepatócitos).
Produção Renal: Pode ocorrer gliconeogênese e glicogenólise, mas na normalidade, a produção é muito pequena.

         Alguns fatores externos e internos além dos citados acima, podem também influenciar no metabolismo da glicose, sendo estes: Tempo da última refeição, hormônios ou ainda uso de glicose pelos tecidos periféricos (musculatura esquelética).
        Ao realizar-se a dosagem glicêmica, pode-se deparar com três situações: Hiperglicemia (Aumento da concentração sérica da glicose), normoglicemia (Concentração sérica normal da glicose) ou hipoglicemia (Diminuição da concentração sérica da glicose). Essas três classificações serão dadas de acordo com mensuração e comparação com valores de referência para cada espécie e faixa etária.
       Diversas causas podem ser encontradas para o aparecimento da hiperglicemia (Acima de 130 mg/dL em cães). Apesar dos mecanismos serem em alguns aspectos de funcionamento, diferenciados, o efeito final de certa forma pode ser considerado o mesmo, pois ambas as causas fazem com que haja menor uso da glicose pelos tecidos periféricos e aumento da síntese hepática.

Possíveis causas de Hiperglicemia:


Aumento da concentração sanguínea de Glicocorticóides: Pode ocorrer por tratamento (administração externa) ou produção endógena. Por promoverem aumento na gliconeogênese hepática através da inibição da afinidade dos receptores celulares de insulina e também de influência na função celular pós receptor, inibindo, desta forma, o efeito da insulina no metabolismo da glicose. Tem-se nesse caso, a possibilidade de aparecimento de atrofia de células beta por exaustão e provocar em seguida, diabetes melito dependende de insulina.

Aumento na liberação de Catecolaminas: Ocorre normalmente em situações de medo, estresse ou dor, ou ainda, em casos de tumor da glândula adrenal. Promovem aumento da glicogenólise hepática; inibição da secreção de insulina; estímulo da secreção de glucagon e influenciam a função celular pós receptor.

Hormônio do Crescimento: Promove a inibição da absorção da glicose pelos hepatócitos, miócitos e adipócitos, mediada por insulina; aumenta a síntese hepática de glicose e ainda influencia a função celular pós receptor. Tem-se então, resistência à insulina.

Diabetes Melito: Promove produção insuficiente de insulina ou prejuízo à ação da insulina em tecidos alvo, resultando em metabolismo anormal da glicose.

Hiperglicemia pós-prandial: Duas a quatro horas após refeição, monogástricos apenas, poderão apresentar aumento na concentração sérica de glicose. Em ruminantes esta situação não ocorre pois pouca glicose sérica é proveniente do trato alimentar e a maioria é produzida pelo fígado.

Neoplasias: Algumas neoplasias promovem a produção exagerada de Glucagon, sendo este o componente que não permite baixas no nível de glicose sanguínea, haverá um "falso alarme" de baixa produção, e esta então, será produzida em maior escala, gerando aumento na concentração sérica de glicose, sem necessidade.

Aumento da Produção de Progesterona: Estimula produção do hormônio do crescimento, cujo mecanismo de ação foi citado acima.

Pancreatite: Além de ser considerado como fator predisponente do Diabetes Melito em cães, junto à pancreatite provavelmente estarão contidas lesões secundárias nas células das Ilhotas de Langerhans.

Uso de determinados medicamentos como Glicocorticóides, ACTH, Acetato de megestrol, Xilazina, Cetamina, Morfina, Fenotiazina ou ainda, Fluido com alto teor de glicose.

Também promovem hiperglicemia, casos como: Disfunção da parte intermediária da pituitária em equinos; Doença grave ou estesse em ovinos; Febre vitular ou doença neurológica em bovinos; Obstrução do duodeno proximal em bovinos; Cólica em equinos; Hipertireoidismo e Animais moribundos.

       Há ainda causas de diminuição da concentração sérica de glicose, sendo esta chamada de Hipoglicemia (Abaixo de 60 mg/dL em cães). Diversas razões podem ser encontradas para que a concentração sérica da glicose esteja diminuída temporariamente ou por tempo indeterminado

Possíveis causas de Hipoglicemia:




Menor absorção intestinal de glicose: É uma causa rara, mas pode ocorrer por inanição ou ainda presença de Síndrome de má absorção (ambas à longo prazo).

Maior produção ou Dose terapêutica excessiva de Insulina: O aumento na produção da insulina poderá se dar por exemplo, por neoplasias nas células beta. O excesso terapêutico poderá ocorrer em casos de erro durante tratamento do diabetes melito.

Hipotireoidismo: Quando houver presença de uma síndrome mais ampla de disfunção pituitária, também conhecida como hipopituitarismo.

Deficiência do hormônio do crescimento: Causa rara, mas pode ser encontrada.

Insuficiência hepática: Quando istalada, promoverá diminuição da gligoneogênese e da glicogenólise. Só será notada hipoglicemia nesse caso, quando no mínimo 70% do órgão estiver comprometido.

Shunt Portossistêmico: Apenas quando a disfunção hepática for grave.

Esforço físico extremo: Promoverá maior demanda de glicose pelos tecidos (musculatura esquelética, por exemplo), dessa forma, haverá depleção da reserva de glicogênio e menor resposta da epinefrina à hipoglicemia.

Cetose bovina: Na fase final da lactação, haverá balanço energético negativo, isto provocará  mobilização de triglicerídeos para fornecer ácidos graxos como fonte de energia e glicerol como precursor de glicose hepática.

Toxemia da prenhez em ovelhas e cabras: No final da prenhez, haverá balanço energético negativo, porém, não é comum.

Septicemia: Não é comum, porém, a hipoglicemia poderá ser um achado comum na fase terminal deste quadro, provavelmente por deficiência na glicogenólise e gliconeogênese, e ainda por maior demanda de glicose pelos tecidos e leucócitos.

Doença do armazenamento de glicogênio: Devido à algum distúrbio hereditário. Haverá acúmulo de glicogênio nas células do fígado, dos rins e do miocárdio.

Hipoglicemia juvenil em cães de raças toy ou miniatura: Quando ocorrer, será em cães com 6 meses ou menos, onde estarão presentes sinais clínicos como diarréia, jejum e parasitismo. Nesta enfermidade, haverá o inadequado armazenamento de glicogênio e proteínas, em associação com deficiência de enzimas hepáticas.

Neoplasias (Exceto Insulinoma): Serão responsáveis por promoverem a secreção de substâncias semelhantes à insulina e farão também o uso excessivo de glicose. Nesta categoria encontram-se neoplasias como Leucemia linfocítica, Linfoma, Leiomioma, Leiomiossarcoma, Carcinoma hepatocelular, Carcinoma mamário, Carcinoma pulmonar, Hemangiossarcoma, Hepatoma, Neoplasia de plasmócito, Melanoma maligno e Adenocarcinoma salivar.


Avaliação Laboratorial da Concentração Sérica de Glicose


Análise bioquímica da glicemia de dois cães distintos, onde o primeiro tubo obteve como dosagem glicêmica de 347,00 mg/dL e o segundo tubo com 90,00 mg/dL.
Fonte: Arquivo Pessoal, 2011.


    A avaliação laboratorial da concentração sérica de glicose deverá respeitar algumas regras para que seja bem sucedida, sendo estas:

  • De animais monogástricos: Colher amostra em jejum de 8 a 12 horas, exceto em animais com histórico de hipoglicemia.;
  • O conservante de amostra deverá ser o Fluoreto de sódio, na proporção 6 a 10 mg/mL;
  • Não estressar o animal durante a colheita;
  • Refrigerar a amostra 15 minutos após a colheita;
  • Armazenamento deverá ser: 8h a 20°C ou até 72h a 4°C;
  • O tempo entre a colheita de sangue e a determinação da glicemia é importante pois a cada hora de permanência da amostra em temperatura ambiente, os valores da glicemia diminuem cerca de 10mg/100ml, caso não se utilize Fluoreto de Sódio.

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REFERÊNCIAS


FARIA, P.F. de; ARAÚJO, D.F. de; BLANCO, B.S. Glicemia em cães obesos e senis. Acta Scientiae Veterinariae (Brazil). ISSN 1678-0345. (2005). v. 33(1) p. 47-50. Summaries (En, Pt); 16 ref.. BINAGRI, CP 02432, 70.849-970 Brasilia, DF - Brasil.

GONZÁLEZ, F. H. D. SCHEFFER, J. F. S. (2003). Perfil sanguíneo: ferramenta de análise clínica, metabólica e nutricional. In: González, F. D. H., Campos, R. (eds.): Anais do I Simpósio De Patologia Clínica Veterinária da Região Sul do Brasil. Porto Alegre: Gráfica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. p. 73-89.

HENDRIX, C. M.; 2006. Procedimentos laboratoriais para técnicos veterinários. São Paulo, Editora Roca. 

SANTOS, W. P. P., NOVACK, N., TENÓRIO, A. P. M., MELO, G. G.. Projeto de extensão: Estudo dos principais problemas relacionados à taxa de glicemia em caninos e determinação de um padrão glicêmico. Disponível em <http://www.eventosufrpe.com.br/eventosufrpe/jepex2009/cd/resumos/R0522-1.pdf>

SERÔDIO, A. T., CARVALHO, C. B., MACHADO, J. A.. Glicemia em cães (Canis familiaris) com glucômetro digital portátil e teste laboratorial convencional. JBCA - Jornal Brasileiro de Ciência Animal. 2008. n. 1, pg. 25 - 34.

THRALL. M.A, et al. Hematologia e Bioquímica ClínicaVeterinária. 1 Ed. São Paulo: Roca, 2007.


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OBS: Todas as fotos deste POST referenciadas como arquivo pessoal, foram tiradas por mim, durante serviços prestados ao Animallab (www.animallab.com.br).
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